Cap. XIX
Olhos,
encontros, desencontros e notícias.
Parte II.
Guilia se enfureceu. Revoltou-se
na verdade e não se conteve após a pergunta.
- O que você
está fazendo aqui, seu louco? Sabe que não é bem vindo!
- Tem certeza?
Luiza me recebeu bem.
- Amiga! Que
história é essa? Tem como me contar?
- Ué, amiga. Ele apareceu aqui e perguntou se
poderia sentar, relutei, mas lembra que eu não posso me levantar, ainda mais
expulsá-lo.
A menina de olhos oblíquos estava
realmente enfurecida.
- Tá. E o que
você veio fazer aqui? Já não nos fez o bastante?
- Se fiz já
não importa, eu quero me redimir. Redimir-me com você e com Luiza que sofreu
junto com você.
Guilia se sentou na cadeira que
era posta à esquerda da sala. Não continha a indignação e por um ligeiro
momento deixou sua doçura e deu espaço a uma mulher forte, magoada, amarga e
rancorosa. Luiza lhe sorriu e ela simplesmente ignorou. Saiu da sala aturdida e sem olhar para frente
esbarrou em Luiz e no esbarrão tudo que levara para a amiga foi ao chão. Flores,
chocolates e mais livros. Imediatamente os dois se abaixaram e neste
involuntário ato as mãos novamente se encontraram e os olhos, consequentemente,
também.
- O que houve,
moça?
- Não é nada.
- Você está
com os olhos tempestuosos.
- Eles são
assim, doutor.
- Pode deixar
que eu pego suas coisas, mas me chame de Luiz.
- Tá, ok.
Ela se ergueu e o esperou
levantar para lhe mostrar a direção deveria seguir. Voltaram ao primeiro
encontro, à recepção. Sentou-se e ele ao lado dela.
- Será que
você pode me explicar o que aconteceu?
- Não é nada.
- Menina,
claro que é. Olhe como você está.
- Já disse que
estou bem.
- Como você é
teimosa. Foi o homem que estava no quarto não é? Deu para ouvir do corredor que
você não gostou de encontra-lo.
Guilia deixou o coração amolecer
e desabafou.
- Eu não
entendo esse coração perdoador da Luiza. Ela sabe o que me aconteceu e agora ela
está lá com ele, fora isso, ele não fez só a mim, mas a nós duas.
Luiz Carlos deixou que o ímpeto
de suas mãos tomasse conta da situação.
- Não vale a
pena guardar ressentimentos, menina!
Guilia penetrou a alma de Luiz
Carlos com os olhos.
- Por que você
se importa tanto comigo? Não sou sua paciente, e, que me lembre, nunca fui.
-Por que acho
que você é alguém especial e isso dá pra ver nos seus olhos, mesmo que você
tente ser ríspida e insensível. Consigo observar em você características nobres
e dignas de serem apreciadas.
- Você nem me
conhece!
- Não preciso
conhecer mais que isto para saber que você é diferente. Agora vá ao quarto e
tome uma postura adequada, postura de mulher que você tem dentro de você.
- Você acha
mesmo que devo fazer isto?
- Bem, eu não
sei quem ele é ou que ele te fez, mas não acho que você seja mulher de deixar
um desafio te dominar. Domine-o, pois você é capaz de dominar até quem você não
conhece, imagine aqueles que te cercam? Vá, garota (sorriu)!
Guilia lhe deu o primeiro sorriso
sincero. Seguiu os conselhos do jovem médico que ficou sentado na recepção
olhando-a atravessar o corredor com um sorriso nos olhos e nos lábios que se
podia ficar a admirar por horas. Guilia ergueu
os ombros, levantou o nariz o máximo que pôde e cruzou a porta do quarto, onde
estava o acompanhante de Luiza e austeramente lhe disse:
- Posso falar
com você em particular?
Luiza perguntou:
- comigo?
- Não! Com
ele!
Imediatamente se levantou e saiu
da sala.