quinta-feira, 31 de maio de 2012

                                                             
XI - Aniversário 
 Cap. III
“Bom, Guilia, tenho um carinho enorme por você, só quero que saiba disso. Vivemos momentos diferentes, pois você tem um mundo a sua frente a explorar. Faça a sua viagem, lá na frente, quem sabe, a gente se encontra e você irá entender que tudo tem a sua hora. Não me queira mal, porque você sabe que só quero seu bem. Você foi o melhor que a vida poderia ter reservado para mim e fico grato a ela por ter te dado a mim. Jamais terei palavras para agradecer. Se um dia o destino nos uniu, hoje ele te dá a oportunidade de viver. Então, viva! Estarei sempre torcendo por você e lembre-se que sempre que houver uma lua no céu, eu estarei em qualquer lugar pensando em você, porque você é a que iluminou toda a solidão que havia em mim. Eu te levarei comigo para sempre, tenha consciência disso. Até breve. Um dia a gente se esbarra.
ps: Não esqueci o seu aniversário. Parabéns! Um forte abraço.
Com amor,
Arthur.”
O parabéns rolava e o que na verdade gostariam de rolar eram lágrimas dos olhos de Guilia.
- Ele me deixou.
Pensava e sussurrava a pobre menina que tentava se conter e que não conseguia deter que suas emoções rolassem pelo seu rosto. Todos, naquele momento, pensavam que era a emoção de mais um ano ou simplesmente emoção pelo festejo da família, todavia, era uma faca invisível cravando o peito da menina, dilacerando e esquartejando seu coração lentamente, sem qualquer piedade. O porto seguro de Guilia estava diante de seus olhos: Luiza. A amiga que sabia bem que o choro contido, desesperado, evasivo era a chegada e a ida de Arthur. Aproximou-se em meio a risos e fotos da amiga e bem baixo sussurrou: “Ele apareceu?” Guilia sem falar nada acenou positivamente com a cabeça. Luiza sentiu aquele frio na espinha. –Ele terminou com ela no dia do aniversário. Que calculista medíocre!  Pensou Luiza enfurecida.
Mal poderia esperar para que aquela festa sem motivos de comemoração terminasse. Assim pensou Guilia até o último convidado se retirar, inclusive e exclusivamente Eduardo. Naquele momento tudo o que ele se propunha a fazer era irritante.
- Minha linda, apesar de querer dormir aqui, sei que seria petulância e invasão minha, estou partindo.
- Tudo bem Dudu. Boa noite.
- Não me fará um convite para ficar já que está tarde?
- A Luiza dormirá aqui, Eduardo. Não tenho como dar atenção aos dois.
                Eduardo, chateado, respirou fundo.
- Sei que minha presença seria radiante, mas gosto de saber que você vai sentir minha falta.
                Guilia, impaciente, deu de ombros.
- O que foi Guilia? Sempre ri do que eu falo e hoje você me ignorou plenamente. O que houve?
- Nada, Eduardo. O dia só foi cansativo e quero descansar.
                Eduardo a puxou para seus braços e a envolveu em seu tórrido abraço. Guilia reivindicou:
- Eduardo, vá embora! Estou exausta!
- Eu poderia ficar abraçado com você eternamente...
- Poderia daquele verbo: não pode! Já está tarde. Vá!
                Eduardo a soltou e sorriu com sorrir de amor puro, verdadeiro, amor que Guilia dispensara. O rapaz dirigiu-se para a porta e novamente voltou a sorrir para ela que se pôs a apenas acenar com a cabeça. Quando o último convidado entrou no carro e definitivamente saiu da linha de seus olhos, a desesperada menina correu para o quarto onde já se encontrava Luiza. Ao abrir a porta correu para a cama e se jogou e aos gritos dizia:
- Ele desistiu, amiga! Desistiu!
                Luiza chorava em ver o sofrimento da amiga que loucamente gritava e chorava.
- Ele é fraco, Gui. Fraco! Não merece você!
- Ele não sabe o mal que me fez! Não sabe o que está fazendo! Por que ele não pensou um pouco, só um pouco em nós dois? Por quê?
- Amiga, não há respostas para isso. Só ele saberia explicar, mas o que te posso dizer é que ele sentirá isso lá na frente, reflexo do que ele está fazendo. Com certeza.
- Luiza, o que vou fazer sem ele? Quem vai me proteger e me entender? Como não pensar nele, no sorriso, no abraço ou no beijo? Como não pensar na falta que ele me faz e me fará? Sem ele minha vida perde o rumo, porque meu rumo era ele.
- Guilia, não posso dizer que essa ferida vai fechar algum dia. Não posso prometer a você coisas que podem nunca acontecer. O que eu te posso dizer é que de repente essa ferida aberta doa menos e talvez se torne apenas uma cicatriz e então a dor será apenas psicológica, daquela que a gente olha e sente a dor nos olhos e não na ferida cicatrizada. E como diria o poeta: “morrer de amor não é o fim, mas me acaba.”

segunda-feira, 28 de maio de 2012

XI - Aniversário
parte II

Abraçadas compartilhando daquela dor imprevisível, forte, infinita, as duas amigas, ajoelhadas, choravam. Luiza, então, interrompeu o silêncio.
- Minha amiga, levantemo-nos. Ele aparecerá.
- Amiga, ele sumiu! Qual a parte dele ter desaparecido que você não entendeu? Ele não me quer mais. Não quer saber de mim!
- Eu entendi tudo e por ter entendido é que eu te digo que ele vai dar algum sinal. Seja para sumir de vez ou para se explicar. Ele não saiu da sua vida ainda. Agora, vamos levantar. Toma um banho, melhora esse rostinho porque tem uma galera lá embaixo te esperando!
                Guilia seguiu os conselhos da sábia amiga que em todos os momentos esteve presente. Mais que ninguém poderia ser ouvida naquele momento. Levantou-se e foi se aprontar, enquanto Luiza escolhia, em meio a pensamentos aturdidos, um vestido para a amiga.
- Qual é o problema do Arthur? Logo ele que dizia que a amava! Ele não tem o direito de fazer isso. A Guilia não merece. Abdicou da sua vida, da sua juventude para ficar com ele, um cara muito mais velho. Isso é injusto da parte dele, é injusto com ele.
                A aniversariante saiu do banheiro ainda chorando e viu o rosto consternado da amiga.
- Não se preocupe Lu! Eu vou ficar bem. Eu só preciso de tempo, tempo para assimilar essas coisas.
- Mas, Gui! Eu sei o que você está sentindo e sei que não é fácil. Eu só queria ter a solução para não te ver passar por tanto sofrimento!
- Amiga, algumas coisas, por mais dolorosas que sejam, são necessárias. Talvez este seja o meu destino. Eu não faço a mínima da razão do Arthur ter sumido e não posso mentir porque você me conhece melhor que ninguém, estou sim sofrendo com isso. Nunca pensei que um dia eu poderia me abrir desta forma e amar tanto alguém e o pior: amar alguém que me daria total esperança de reciprocidade e desapareceria sem ao menos dizer que estava desistindo. Mas vou passar por tudo e tenho total consciência que não vou me curar, contudo sei que a dor com o passar da vida será menos intensa. Eu só preciso que você me entenda, amiga, e me ajude a passar por esta situação difícil.
- Estarei sempre aqui. Você é a irmã que eu nunca tive. A sua dor é a minha também. Não sabe o quanto estou mal com toda esta situação.
                Sorriram e choraram juntas. Estenderam a mão uma para outra como elo daquela amizade que duraria a inteira vida das duas. Guilia aprontou-se e, mesmo com vontade de sumir de qualquer lugar que a conhecesse, desceu para sua festa com sua melhor amiga.  Ao descer, encantou os olhos dos pais totalmente orgulhosos pela linda menina que se tornara uma mulher diante dos olhos deles e eles nem tinham percebido, encantou os olhos dos convidados pelo jeito estonteante e ainda mais Eduardo, o eterno apaixonado que a via ainda mais bela, ainda mais fascinante toda vez que seus olhos a encontravam. Amara-a desde a primeira vez que seu olhar a tocou. Foi amor d’alma, daquele que é, existe sem que perceba, que floresce sem regar, era amor vindo de seu passado, de seu presente que esperançava seu futuro. Sem dúvida nenhuma era amor, apenas amor puro. Entretanto, um amor que jamais fora correspondido. Guilia nunca o olhou com outros olhos além daqueles oblíquos olhos de ternura que o alimentava, mesmo sabendo que aquilo não era amor. Submetia-se a isso com a certeza que isso já era o suficiente. Depressa, correu para o pé da escada e lhe estendeu a mão. Guilia sorriu e seria aquele o sorriso que o levaria ao êxtase, certo também que fora um sorriso de agradecimento pelo o lisonjeio, não um sorriso apaixonado, admirado.
- Você é a aniversariante mais linda que já existiu na história da humanidade.
- Obrigada, Dudu.
- É verdade! Você é a mulher mais linda e encantadora. Se eu fosse seus pais não a deixaria sair de casa nunca. (gargalhou)
                Guilia, sem graça, sorriu. Luiza em defesa da amiga retrucou.
- É por isso que Deus não dá asas à cobra.
- Garota, o assunto não é com você. Tem de me perdoar se você não é a minha escolhida, mesmo que você queira.
                Enfurecida, Luiza, sutilmente, disse:
- Desafortunada seria eu se um dia quisesse que um homem que é um garoto me quisesse e eu, insanamente, gostasse disso. Ainda não me perdi em desilusões, querido.
                Eduardo esboçou uma resposta, porém gentilmente Guilia os pediu para cessarem a briga que era observada pelos convidados.
- Meus queridos, parem com isso! Estamos no pé da escada e todos estão nos olhando. Não é de bom tom que façamos isso aqui.
- É por isso que você é uma princesa, disse Eduardo com olhar apaixonado.
                A partir daquele momento, a encantadora menina sabia que sua noite não seria fácil: Arthur distante em todos os aspectos, pessoas perguntando por ele, e, Eduardo a espreitando por todos os lados. E assim foi por toda a noite. Enquanto tentava se distanciar das pessoas, o jovem apaixonado ali estava. A qualquer lugar que se pré-dispusesse a ir haveria um fiel acompanhante o qual não era convidado, mas que ia assim mesmo.
Então, foi quando se preparavam para cortar o bolo, em meio as fotos, que o celular de Guilia sinalizou uma mensagem, e, sim, era ele, era uma mensagem de Arthur.

domingo, 27 de maio de 2012

XI - Aniversário
parte I
Alguns dizem que o tempo cura qualquer coisa, mas às vezes a sensação que dá é que ele além de não aliviar, sacia ainda mais a dor latente no peito, como se fosse um suprimento ou alguma coisa parecida. Guila viu seus dias passarem lentamente ao passo que todas as tentativas de comunicação com Arthur foram vãs. Ligava desesperadamente, mandava e-mails e cartas, mas nenhumas dessas inúteis tentativas foram compreendidas. O que restava a pobre moça era esperar algum sinal chegar. Ao lado do telefone, esperando por algum sinal, passava noites a fio, na angústia do celular tocar ou nas atualizações da caixa do e-mail receber algum sinal daquele que um dia jurou amor eterno. Foram noites e dias sem dormir, sem comer direito, sem produzir uma música sequer. A grande inspiração havia se perdido, o grande amor da vida dela, do outro lado do oceano a esquecera por completo.
Enfim, o aniversário da menina Guilia havia chegado. Vinda de uma família um pouco tradicional, prezavam por dias que mereciam comemoração e fazia jus a data festiva. Porém, a aniversariante que outrora era cheia de vida, de brio, de sorrisos a exalar, esta só queria neste dia esquecer o mundo e correr para o mais longe que pudesse, a fim de se perder, perder-se do próprio corpo e alma, aliviar-se da dor que guardava, em silêncio, no peito. A única coisa que poderia alegrar o dia da pequena Guilia era um sinal vindo da Europa. Um sinal de vida, vida nela, vida de Arthur. Vida que chegou.
Os pais da adorável moça terminavam os preparativos da grandiosa festa, e, enquanto a euforia paternal acontecia ao arredores da casa, Guilia encontrava-se em seu quarto, ainda deitada, buscando a razão em si de Arthur ter sumido. Entre lamentações e questionamentos, sua grande amiga a interrompeu batendo a porta.
- Mãe, já vou! Já estou quase pronta!
- Não é sua mãe, não! É sua melhor amiga! Será que posso entrar? (rindo)
- Claro, Lu!
                Levantou-se, ajeitando os cabelos e abriu a porta. Luíza se assustou.
- Amiga, as pessoas estão chegando! Vá se aprontar!
- Não quero descer, amiga!
- O que houve? Aconteceu alguma coisa? Tenho ligado para você, mas não tem retornado, pensei que fosse a faculdade ou algo parecido!
- Não, amiga, pior que isso!
- O que foi? É o Arthur? Fala!!!
-  É, amiga, parte de mim não está mais aqui.
- Amiga, me diz, o que houve?!
                Em lágrimas, Guilia disse:
- Ele sumiu. Não me atende, não responde aos meus e-mails, minhas cartas ou mensagens. Ele simplesmente desapareceu. Liguei para empresa dele e ele tem ido trabalhar regularmente. Morrer ele não morreu. Eu que morri para ele, amiga. Eu que morri.
                Ajoelhou bem devagar e em prantos, a doce menina, falava:
- Eu não vou aguentar isso, Luiza. Não vou aguentar.

                Neste momento, Luiza mais que imediato agachou-se e abraçou a amiga sem falar nada. Há momentos que palavras não ajudam e momentos que dispensam comentários.

sábado, 26 de maio de 2012


X - Insegurança
Como promessa, os dois mantinham contato quase todos os dias. Fosse por e-mail, telefone ou cartas. De alguma forma, faziam-se presente na vida do outro. Compartilharam de momentos importantes como o ingresso da jovem menina na faculdade e a promoção esplendorosa no trabalho de Arthur. Vibravam e curtiam aqueles momentos como se estivessem por perto, entretanto, tais momentos, após a rotina cansativa dos dois, tornaram-se escassos e gerou entre eles desentendimentos, porém não o suficiente para anular o amor que comportavam em cada pequeno coração.

- Meu amor, eu já disse que não liguei porque estava na faculdade em aula!
- Então, por que não me atendeu? Tinha alguém com você? Pode falar!
- Pára com isso, Arthur! Desconfiança é ato de pessoas que não se amam e nós nos amamos não é? (Indignada)
- Claro! Pelo menos eu te amo mais que tudo nessa vida e por isso que estou aqui te perguntando!
- Já disse que estava na aula e não repetirei mais. Perder tempo com essas futilidades nunca foi a nossa intenção. Como você está? Estou com saudades.
- Bem. Trabalhando bastante, mas arrumando tempo para conversar com você.
               Guilia suspirou.
- Quando você volta, Arthur?
- Ainda não sei.
- Poxa! Será que não conseguirá retornar para o meu aniversário?
- Não sei.
- Tudo bem, Arthur. Acho melhor desligarmos, certo?
- Você é quem sabe, Guilia.
- Ok. Eu te amo e boa noite para você.
- Obrigado.

Desligaram desta forma. Guilia não se conteve e em lágrimas deitou-se, sentido-se suja, humilhada, mal tratada. Jamais pensaria nada acerca da vida distante de Arthur, e, nunca dera motivos para irar-se. Como poderia ousar a pensar assim?


- Ela está com outro. 
Assim pensou o ingênuo e pobre Arthur que não dormira pensando em quem poderia estar com ela. Com quem aquela que o fez juras de amor poderia estar dando seus fartos abraços ou seus fascinantes sorrisos. Quem a tomaria melhor que eu? Quem a amaria mais que eu? Dúvidas o afogavam numa angústia que duraria toda aquela noite... Duraria, ainda, muitos anos.
IX- Fatos
Corpos separados, mas mente e corações unidos por um único sentimento que seria capaz de tornar qualquer distância em meros passos, qualquer lugar em um paraíso. Sentimento que nos transporta ao amado e faz-nos melhor. Sentimento este que os uniu em todos os momentos que puderam. Viveram a distância dolorida e sofrida com cada força que tinham dentro de si. Toda ânsia era os que mantinham de pé. Cada vitória singular tornava-se par à medida que se uniam por meio de um telefonema, ou uma carta, que como há muito conhecida, fora criada para unir duas mãos que estavam distantes. Contudo, apesar deste dom cravado no peito ser o mais perfeito que um homem pode dar a outro, Guilia sabia que aquela partida de Arthur seria determinante para rumo de suas vidas. De alguma forma, sentia que, talvez, jamais se encontrariam novamente ou que aconteceria algo. 

Dias se passaram,e, Arthur, distante da amada, via a vida passar lentamente perante seus olhos. Fechar os olhos o corroía, pois a única imagem cabível era a de Guilia em seus braços. Abri-los era uma tortura interminável, já que era nos sonhos que podia contentar-se. Não era fácil ficar longe dela, mas era ainda mais difícil sabendo que ela estaria lá, vulnerável a qualquer um que pudesse enchê-la de carinho em sua ausência. Isso o desintegrava. Como poderia privá-la da vida? Como poderia fazer juras de amor a alguém que mantém cativo em sua juventude por um mero capricho de sua maturidade? Seria insânia? Seria ventura? Seria amor? Indagações infindas envolviam sua mente, envolviam seu peito, sua alma, sua Guilia.

Guilia rodeada daquela dor da partida do amado, sentia no íntimo de seu peito que a vida reservara para eles a distância. Não importaria o que fizessem, um dia se separariam novamente. Era o jogo infeliz do destino. O último sorriso, o último abraço, as últimas palavras seriam doces lembranças levadas para sempre em sua memória, a fim de não esquecer aquele que um dia fora o maior dentro dela. Aquele de quem ninguém jamais poderá tomar o lugar que é único. Com suas lembranças ardidas em cada olhar para o horizonte, o tempo passou.