Cap. XIX
Olhos,
encontros, desencontros e notícias.
Parte IV
Rafael aproximou-se lentamente,
analisava friamente a situação. Enquanto isto, num abraço de partilha de dor,
Eduardo e Guilia choravam abundantemente. Guilia saiu daquele abraço doloroso e
Eduardo com olhar tenro e amoroso, disse:
- Esse foi o
abraço que me uniu a ti. O único que me deixou te sentir.
Guilia secava as lágrimas e
entre suspiros falou:
- Partilhamos
o mesmo tipo de dor.
Eduardo pegou na mão de sua
amada.
- Você é o
amor da minha vida, mas sei que você não me quer. Não te posso dizer que aceito
isto, mas não impeço. Vai além das minhas mãos e esta situação me faz sofrer
muito, Guilia. Não consigo trabalhar direito, ao menos raciocinar. Então,
decidi trabalhar fora do Rio. Vou passar
um tempo na Europa e depois volto para São Paulo. Essa uma medida drástica
mesmo, porque tenho certeza se ficar farei uma loucura maior.
A menina, estupefata, disse:
- Não é
preciso, Dudu! Fica!
- Só se você
ficar comigo.
- Você sabe
que eu não posso.
- Então nada
me prende aqui.
- E seus pais?
- Eles vão
ficar bem. Virei aqui vê-los, mas vou passar um tempo sem procurar você. Tudo
bem?
Ela simplesmente não tinha
reação. Acenou positivamente com a cabeça. Eduardo lhe sorriu e beijou
calorosamente sua testa e levantou.
- Adeus,
Guilia.
Sem esperar a reação da amada,
dirigiu-se para a porta do hospital e esbarrou em Rafael que observava a
conversa ao longe. Abordou-o.
- Cuide dela.
Por favor.
- Eu cuido.
Rafael tomou certa postura e
Eduardo manteve a sua. Estendeu a mão e o delegado Cortez relutou em si para
não estender a sua, mas fora impossível. Isto estava longe de sua conduta. Mãos
se apertaram.
- Rafael,
desculpe.
- Tudo bem,
cara.
- Pode deixar
que não farei mais isso. Estou indo embora pra Europa sem prévia de volta.
- Boa viagem.
Tenho certeza que será o melhor pra você.
Mãos se largaram e cada um
seguiu seu destino: Eduardo ao de esquecer Guilia; Rafael de tê-la para sempre
em sua vida. Caminhando pelo corredor analisava aquela que fazia cada pulsar de
seu coração. Sim, ela aceitaria. É a mulher da minha vida. Pouco a pouco foi
deixando o nervosismo de lado e chegou ao silêncio daquela de olhos cor de folha.
Com rosas não mão, falou:
- Rosas para a
rosa da minha vida!
Guilia sorriu, levantou e o
abraçou. Após um longo abraço, pegou suas rosas e se misturou nelas. Ele lhe
sorria.
- São lindas.
- Nenhuma é
mais bonita que você, meu amor.
- Só você,
Rafa.
- Só você para
me fazer assim, feliz.
Sentaram-se.
Guilia colocou as rosas ao seu lado e encostou no ombro de Rafael. Minutos em
silêncio até que o digno Cortez interrompera.
- Ele vai
embora, não é? Está triste por causa disso?
- Não. Estou
triste porque ele vai por minha causa.
- Mas, minha
linda, vai ser melhor para você. Ele é maluco.
- Não, Rafa.
Ele ama alguém e esse alguém não o pode corresponder. Você já sentiu isso? Você
sabe a dor de olhar para aquela pessoa que você ama e saber que ela não te dá a
mínima ou pelo menos não sente e não te retribui o mesmo?
Rafael tirou os óculos escuros.
Passou a mão pela barba.
- É tudo o que
eu não quero enxergar, Guilia.
Ela suspirou. Entendeu. Rafael
passou a mão pelos ombros da menina e a trouxe para si.
- Vai ser
melhor assim, entenda.
Guilia saltou do banco e pôs-se
a caminha pelo jardim. Rafael a acompanhara com os olhos até que ela voltou com
um sorriso bom. Sentou-se. Rafael sorriu e deu continuidade a conversa,
entretanto em outras vias de assunto.
- Meu amor,
tenho uma notícia.
- Conte!
- Está
preparada?
- Sempre
estou.
Rafael olhou dentro dos olhos de
Guilia.
- Você sabe
minha profissão, não é princesa? Então, fui transferido para o Sul.
O rosto da menina
congelou. Outra partida, outra ausência. Seu coração não aguentaria. Uma lágrima lhe escorreu pelo rosto. Rafael a
secou.
- Não chore,
meu amor. É provisoriamente.
- Eu conheço
essa história.
- É verdade.
- Eu imagino
que seja.
Guilia levantou novamente, mas
ficou imóvel. Rafael levantou, tomou a frente de sua menina e segurou suas
mãos. Olhou profundamente nos olhos dela, penetrou sua alma.
- Meu amor,
quando digo que você é a mulher da minha vida eu não minto. Se te digo que vou,
mas voltarei é porque sou homem e cumpro com minha palavra. Não vou abandonar
quem eu mais amo. Não vou deixar a mulher que me faz feliz só com um sorriso e
é por saber disto tudo que tenho um pedido a fazer.
Guilia ainda estarrecida,
mostrava-se fria e ferida, mas ao pensar no pedido lhe surgiu uma pergunta que
brotou de seus lábios que quase não se mexiam.
- Qual?
Rafael sorriu.
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