Cap. XIX
Olhos, encontros, desencontros e notícias.
Parte III
Após a saída imediata da sala,
Guilia dirigiu-se sem olhar para trás ao espaço reservado para parentes ou
amigos que esperavam por pacientes internados. Era uma espécie de refúgio de um
lugar tão sombrio como é o hospital. Alguns pacientes sentavam nos bancos para
um pouco de raios de sol, outros para chorar, contudo, no caso de Guilia era
simplesmente para esbravejar. Ele a
seguia até que a menina achou um banco vazio e escondido dos olhos das pessoas.
Sentou-se e ele fez o mesmo e desde então ela não parou de falar.
- O que você
está pensando, hein? Sai por aí machucando o coração das pessoas e aí
simplesmente volta para pedir desculpas? Não é assim. Você não pode sair por aí
fazendo o que fez. Não é todo mundo que vai aturar.
- Eu fiz por
você, Guilia.
- Isso não
explica, garoto.
- E nem me
redime. Mas tenho consciência do que fiz e entendo se você nunca me perdoar. Só
quero que você saiba que estou mesmo arrependido pela atitude que tive. Quando
soube que a Luiza tinha se machucado por minha causa, caiu a ficha do que eu
tinha feito. Por mais que entre mim e ela só haja alfinetadas, ela me fez cair
na real e entender que eu errei feio. Por isto vim até aqui para pedir
desculpas.
Guilia penetrou seus olhos. Ele
falava com sinceridade.
- Ela te
perdoou?
- Sim. No
começo, foi relutante. Não queria que eu me sentasse, mas forcei a barra. Eu
necessitava da atenção dela, mesmo que ela não me perdoasse. Mas, ela tem um
coração bom, Guilia. Eu jamais imaginei que falaria da Luiza assim. Ela me
surpreendeu.
- Ela é
incrível.
- Tanto quanto
você.
Guilia virou o rosto e procurou
a luz solar.
- Guilia,
perdoe-me se te magoei. Eu sei que não poderia fazer aquilo.
- E por que
fez?
- Porque eu
amo você.
- Isso não é
amor.
- E o que é
amar?
Guilia abaixou a cabeça e
Eduardo ajoelhou-se em sua frente. Guilia o olhou.
- Eu sei que o
que eu sinto por você é amor, mas é um amor que me machuca, que me corrói e
você sabe disso mais que ninguém. É claro que nada que eu fale ou nenhum
sentimento justificará as coisas que fiz, porém você tem de entender que foi
num momento insano de fúria.
-
Sinceramente, Eduardo...
O rapaz cortou.
- Você mudou,
Guilia. Você não é mais a menina que eu conheci. Quantas vezes te pedi perdão e
você me sorriu, mas hoje você reluta. O
que houve com você?
- A vida me
ensinou a ser assim.
- Ela não te
ensinou a não perdoar.
- Ela me
ensinou que todo mundo pode quebrar meu coração e por mais que ele fique em
pedaços, tudo continuará normalmente.
Eduardo lacrimejou
- Eu só queria
que ninguém te fizesse sofrer, que jamais tivesse que lamentar a vida, Guilia.
Eu queria muito te fazer feliz e te mostrar que eu te amo. Mas a vida não me
escolheu para você, não é? Não sou o bastante, o suficiente. Desculpe-me por tudo e por contribuir para
teu sofrimento silencioso. Eu te amo, Guilia e sempre te amarei. Perto ou
longe, vendo-te ou não, você ficará na minha memória e perpetuamente no meu
coração.
- Posso te
pedir uma coisa?
- Tudo, exceto
que deixe de te amar. É impossível.
- Dê-me um
abraço. É só isso.
Os dois choraram e olhos da cor
do mar os espreitavam, até que Rafael surgiu no corredor e viu a cena.
Aproximou-se.
Nenhum comentário:
Postar um comentário