sexta-feira, 10 de agosto de 2012


Cap. XIX
                                                   Olhos, encontros, desencontros e notícias.
                                                                    Parte III
                Após a saída imediata da sala, Guilia dirigiu-se sem olhar para trás ao espaço reservado para parentes ou amigos que esperavam por pacientes internados. Era uma espécie de refúgio de um lugar tão sombrio como é o hospital. Alguns pacientes sentavam nos bancos para um pouco de raios de sol, outros para chorar, contudo, no caso de Guilia era simplesmente para esbravejar.  Ele a seguia até que a menina achou um banco vazio e escondido dos olhos das pessoas. Sentou-se e ele fez o mesmo e desde então ela não parou de falar.
- O que você está pensando, hein? Sai por aí machucando o coração das pessoas e aí simplesmente volta para pedir desculpas? Não é assim. Você não pode sair por aí fazendo o que fez. Não é todo mundo que vai aturar.
- Eu fiz por você, Guilia.
- Isso não explica, garoto.
- E nem me redime. Mas tenho consciência do que fiz e entendo se você nunca me perdoar. Só quero que você saiba que estou mesmo arrependido pela atitude que tive. Quando soube que a Luiza tinha se machucado por minha causa, caiu a ficha do que eu tinha feito. Por mais que entre mim e ela só haja alfinetadas, ela me fez cair na real e entender que eu errei feio. Por isto vim até aqui para pedir desculpas.
                Guilia penetrou seus olhos. Ele falava com sinceridade.
- Ela te perdoou?
- Sim. No começo, foi relutante. Não queria que eu me sentasse, mas forcei a barra. Eu necessitava da atenção dela, mesmo que ela não me perdoasse. Mas, ela tem um coração bom, Guilia. Eu jamais imaginei que falaria da Luiza assim. Ela me surpreendeu.
- Ela é incrível.
- Tanto quanto você.
                Guilia virou o rosto e procurou a luz solar.
- Guilia, perdoe-me se te magoei. Eu sei que não poderia fazer aquilo.
- E por que fez?
- Porque eu amo você.
- Isso não é amor.
- E o que é amar?
                Guilia abaixou a cabeça e Eduardo ajoelhou-se em sua frente. Guilia o olhou.
- Eu sei que o que eu sinto por você é amor, mas é um amor que me machuca, que me corrói e você sabe disso mais que ninguém. É claro que nada que eu fale ou nenhum sentimento justificará as coisas que fiz, porém você tem de entender que foi num momento insano de fúria.
- Sinceramente, Eduardo...
                O rapaz cortou.
- Você mudou, Guilia. Você não é mais a menina que eu conheci. Quantas vezes te pedi perdão e você me sorriu, mas hoje você reluta.  O que houve com você?
- A vida me ensinou a ser assim.
- Ela não te ensinou a não perdoar.
- Ela me ensinou que todo mundo pode quebrar meu coração e por mais que ele fique em pedaços, tudo continuará normalmente.
                Eduardo lacrimejou
- Eu só queria que ninguém te fizesse sofrer, que jamais tivesse que lamentar a vida, Guilia. Eu queria muito te fazer feliz e te mostrar que eu te amo. Mas a vida não me escolheu para você, não é? Não sou o bastante, o suficiente.  Desculpe-me por tudo e por contribuir para teu sofrimento silencioso. Eu te amo, Guilia e sempre te amarei. Perto ou longe, vendo-te ou não, você ficará na minha memória e perpetuamente no meu coração.
- Posso te pedir uma coisa?
- Tudo, exceto que deixe de te amar. É impossível.
- Dê-me um abraço. É só isso.
                Os dois choraram e olhos da cor do mar os espreitavam, até que Rafael surgiu no corredor e viu a cena. Aproximou-se.

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