sábado, 2 de junho de 2012


XII – Questões, mar-horizonte e reflexões
Acordada por todo fio de noite que havia ainda diante de seus olhos, Guilia só conseguia pensar no que havia feito ou, ainda, no sentimento que tinha dentro do peito e não sabia a dimensão.  Era uma dor que não cessava e por mais que quisesse esquecer-se de tudo, ao seu redor havia o cheiro, as cores, os gestos, as falas de Arthur. Era difícil pensar que amara sozinha pensando que olhava em um espelho. A noite, o sono, a insônia, a ausência agora completa de Arthur tomara de súbito a vida da menina e não deixara sequer um segundo. Atormentara-a por longas horas até que ao cair da manhã, nos braços de sua incansável amiga, Luiza, repousou no meio de leituras e releituras, interpretações e perguntas, nos braços de Luiza cujo sono a invadiu da mesma forma e ali adormeceram por longas horas.
Saciada de sono e de dor que não a deixara nem em sonho, acordou e bem devagar saiu dos braços de Luiza e a colocara deitada. Foi à varanda e se sentou. Enquanto permaneceu ali, olhando para o mar-horizonte pensava nos momentos que tivera com Arthur, desde o encontro repentino, quiçá marcado pelo destino, até a entrega de corpo e alma de ambos. Não entendia o teor da mensagem. Chorava. Gostaria de se jogar naquele mar-horizonte e de lá jamais sair, pois preferível era morrer para não sentir esta dor a senti-la mata-la sem piedade.  Lamentava-se por tudo e seus lamentos duraram horas na varanda, até que Luiza acordara com os soluços de Guilia.
- Minha amiga!
- Não fale nada, Lu! Eu preciso chorar, eu preciso jogar essa dor para fora, porque se eu não fizer, eu juro que morro. Morro de tristeza. Juro.
Sentou-se, então, Luiza, ao lado de sua amiga e por ali se passaram horas.
A porta do quarto se abriu e era a mãe de Guilia com o almoço.
- Meninas! Meninas! Venham comer!
- Mãe, deixa aí em cima da cama que já vamos!
- Nem pensar, dona Guilia! Hoje vocês não se alimentaram e já são 17 horas.
 As meninas se levantaram e foram ao encontro da prendada mãe que fizera ela mesma o almoço para a filha e amiga, no entanto, quando as viu, assustou-se.
- Guilia, o que houve? Por que está chorando?
- Nada, mãe.
- Luiza, pode me contando o que aconteceu com Guilia.
- mas, tia...
                Guilia a interrompeu.
- o Arthur me deixou, mamãe! Satisfeita?
                A mãe se sentou na poltrona e estarrecida, sem falar, ficou por alguns minutos parada. Respirou fundo e falou:
- Filha, vai ser duro, mas você vai superar isto. Não tente achar os motivos em você pela decisão dele. Tente pensar que ele achou motivos nele para desistir de alguém como você.
A filha desabou na cama. Sabia que a mãe estava certa, mas pensar daquela forma era assaz complicada. Como pensar que as razões não foram vistas nela, nas características dela e sim no que ele tinha dentro dele? Ele teria deixado de amá-la?
A sábia mãe deu um beijo na filha e chamou Luiza para ir até a cozinha no intuito de deixar a filha refletir, não porque era o ideal, mas porque era preciso. E a menina acompanhada de seus pensamentos mal resolvidos, atordoados, permaneceu em seu quarto por mais uma noite e só saiu para o café no dia seguinte, decidida, recuperada e convicta, após o horário do café familiar.  Ao chegar à cozinha, havia na bancada um recado de sua amiga:
“ Estou com você para o que acontece e o que vier. Você é mais forte que tudo isto. É só do momento sozinha que você precisa. Vou estar sempre por perto!
Um beijo de quem te ama muito!
Lu”

E assim surgiu o primeiro sorriso na face de Guilia. Sorriso que já não aparecia há dias. Sozinha, tomou o café da manhã enquanto contemplava o sol refletir na janela e clarear seus olhos, pensamentos e coração. Era ali o início de uma nova era.

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