terça-feira, 19 de junho de 2012


XIII – Promessas
A vida tomara um rumo que a consciência humana de Guilia desconhecia, mas cansada de lutar contra o destino a ser seguido, tomou a decisão de aceita-lo, fosse ele o que for, se assim estava reservado, desta forma deveria ser cumprido como parte de uma missão intrínseca que nós, mortais, desconhecemos.
Após o café Guilia resolvera fazer uma promessa para si: lembrar apenas dos bons momentos que tivera com Arthur e lembrar-se de esquecer os maus momentos que o mesmo lhe proporcionara. Subiu, então, para seu quarto, abriu as janelas e calmamente tirou pouco a pouco coisas que a faria lembrar aquele que partiu. Retirando as fotos, agora sem lágrimas, sorria de forma nostálgica, porque sabia que eram momentos que haviam se eternizados e que só viveriam a partir daquele momento em sua memória. Fora difícil olhar as fotos, as cartas e até mesmo os presentes, entretanto, Guilia bravamente resistiu. Pegou uma caixa e lá colocou Arthur. Fechou e serenamente levou para sótão e lá deixou certas coisas que por muito tempo ficaram esquecidas ou, talvez, escondidas. Ao descer para o seu quarto procurou não pensar em nada, já que se obedecesse à vontade do corpo, voltaria aos aposentos daquela caixa cheia daquilo que ela queria ter e viver, mas não podia. Chegado ao quarto, deixara algo que a faria lembrar e também esquecer, em sua escrivaninha tinha um certo tipo de relatos, não seria ao certo um diário, já que nem todos os dias foram escritos, ou melhor, nem todos os acontecimentos eram relatados, mas fatos importantes e pensamentos eram descritos ali, às vezes de forma tão impessoal que não parecia que falava dela mesmo, às vezes tão efusiva que qualquer um que lesse, entraria na história como parte dela. Seria isso sua fuga da realidade dolorosa que a cercava e sua única oportunidade de não transparecer o que olhos insistiam em dizer. Cheias de lembranças, ela passou toda tarde e noite trancafiada à memória que em nenhum momento a deixara sozinha. Com ajuda desta fiel companheira escreveu durante horas o que se passava dentro dela e ao descansar por um momento desceu para tomar uma água e lá encontrou seus pais conversando.
- Minha filha! Que bom que desceu! Estávamos falando justamente de você! Disse o pai.
                Guilia sorriu como se não soubesse do que se tratava o assunto, mas em seu íntimo já sabia. Deixou-os falar.
- Gui, seu pai e eu conversávamos sobre este seu término de namoro. Sei que foi injusto com você e que você não merecia isso. Nós sabemos também o quanto você gostava dele, mas não adianta se lamentar mais, certo? Já passou o tempo da tristeza!
- Está tudo bem, mãe!
- Não está, minha filha. Nós a vimos não dormir e não comer durante dias! Ficamos de longe porque conhecemos sua força e sabíamos que poderíamos atrapalhá-la, mas agora eu acho que é hora de você expandir seus olhares.
- É, filhota! Pensei e conversei com sua mãe e resolvemos te dar uma viagem de presente. Escolha o lugar!
- Eu não quero viajar, pai. Obrigada, mas eu não quero.
                O pai buscando entender, disse:
- Mas, Guilia! Por que não viajar? Será bom pra você esquecer tudo isso.
- Pai, eu não posso largar a faculdade, minha vida aqui.
- Tranque por um período e faça cursos de extensão. O que você acha?
- Eu agradeço muito sua preocupação, mas não quero mesmo. Eu poderia estar em qualquer lugar do mundo, mas se minha memória ainda existisse, ali estaria sentindo as mesmas coisas. Eu não tenho de fugir dos gigantes, tenho de saber enfrenta-los, como você me ensinou, lembra?
                O pai ao mesmo tempo em que lamentava ficou orgulhoso por um de seus ensinamentos terem entrado em prática. Criara uma guerreira e não tivera dado conta disso. Abraçou-a num abraço caloroso e solicito. Beijou a filha e sorrindo disse:
- Você sempre me pega, não é menina?
                Guilia sorriu. Enquanto isso a mãe que assistia à cena, falou:
- O que vai fazer então para esquecer esta história?
                 Com lágrimas pulsando no canto de seus oblíquos olhos, a menina disse:
- Não vou esquecer. Aprenderei a conviver com tudo isso. Sou forte o bastante pra entender que nem sempre é como nós queríamos que fosse. A gente pensa que pode escrever a própria história, mas se assim fosse não teríamos finais ruins. Não vivo uma literatura, mamãe, vivo num mundo onde não importa se você se feriu ou não, ninguém vai parar para te ajudar. Eu não quero esquecer, mas também não quero ser lembrada todos os momentos que tenho uma ferida incurável. Quero viver. Vou viver. Por isso quero que esta seja nossa última conversa sobre o Arthur. Tudo está esclarecido o suficiente para deixarmos o toque neste passado que guardo comigo.
- Filha-interrompeu o pai-, por que não conhecer outras pessoas?
- Tudo tem seu tempo e o momento agora é pensar em mim, na minha carreira. O que tiver de acontecer, acontecerá. Não espero, mas também não impeço.
                Os três se abraçaram por um longo momento e Guilia, após o momento familiar, assaltou a geladeira e voltou para seus aposentos. Lá, sentou-se na varanda e sem perceber a lua tomou a direção de seus olhares. Era ele olhando para ela. A lua era sim o olhar mais tenro de Arthur. Sorriu. Jamais houvera luar mais lindo que aquele. Chorou pela falta que faria e sorriu novamente ao pensar que o luar não lhe faltaria e desta forma onde estivesse seria iluminada pelos olhares bons daquela lua-olhar daquele que a deixara, mas que não deixara sua alma.
 E assim este dia foi praticamente fúnebre na vida de Guilia. Guardou-o, ainda, em silêncio, por muitos anos.

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