XI - Aniversário
Cap.
III
“Bom, Guilia, tenho um carinho enorme por você, só quero que
saiba disso. Vivemos momentos diferentes, pois você tem um mundo a sua frente a
explorar. Faça a sua viagem, lá na frente, quem sabe, a gente se encontra e
você irá entender que tudo tem a sua hora. Não me queira mal, porque você sabe
que só quero seu bem. Você foi o melhor que a vida poderia ter reservado para
mim e fico grato a ela por ter te dado a mim. Jamais terei palavras para
agradecer. Se um dia o destino nos uniu, hoje ele te dá a oportunidade de
viver. Então, viva! Estarei sempre torcendo por você e lembre-se que sempre que
houver uma lua no céu, eu estarei em qualquer lugar pensando em você, porque
você é a que iluminou toda a solidão que havia em mim. Eu te levarei comigo
para sempre, tenha consciência disso. Até breve. Um dia a gente se esbarra.
ps: Não esqueci o seu aniversário. Parabéns! Um forte
abraço.
Com amor,
Arthur.”
O parabéns rolava e o que na verdade gostariam de rolar eram
lágrimas dos olhos de Guilia.
- Ele me deixou.
Pensava e sussurrava a pobre menina que tentava se conter e
que não conseguia deter que suas emoções rolassem pelo seu rosto. Todos,
naquele momento, pensavam que era a emoção de mais um ano ou simplesmente
emoção pelo festejo da família, todavia, era uma faca invisível cravando o
peito da menina, dilacerando e esquartejando seu coração lentamente, sem
qualquer piedade. O porto seguro de Guilia estava diante de seus olhos: Luiza.
A amiga que sabia bem que o choro contido, desesperado, evasivo era a chegada e
a ida de Arthur. Aproximou-se em meio a risos e fotos da amiga e bem baixo
sussurrou: “Ele apareceu?” Guilia sem falar nada acenou positivamente com a
cabeça. Luiza sentiu aquele frio na espinha. –Ele terminou com ela no dia do
aniversário. Que calculista medíocre! Pensou Luiza enfurecida.
Mal poderia esperar para que aquela festa sem motivos de
comemoração terminasse. Assim pensou Guilia até o último convidado se retirar,
inclusive e exclusivamente Eduardo. Naquele momento tudo o que ele se propunha
a fazer era irritante.
- Minha linda, apesar de querer dormir aqui, sei que seria
petulância e invasão minha, estou partindo.
- Tudo bem Dudu. Boa noite.
- Não me fará um convite para ficar já que está tarde?
- A Luiza dormirá aqui, Eduardo. Não tenho como dar atenção
aos dois.
Eduardo,
chateado, respirou fundo.
- Sei que minha presença seria radiante, mas gosto de saber
que você vai sentir minha falta.
Guilia,
impaciente, deu de ombros.
- O que foi Guilia? Sempre ri do que eu falo e hoje você me
ignorou plenamente. O que houve?
- Nada, Eduardo. O dia só foi cansativo e quero descansar.
Eduardo
a puxou para seus braços e a envolveu em seu tórrido abraço. Guilia
reivindicou:
- Eduardo, vá embora! Estou exausta!
- Eu poderia ficar abraçado com você eternamente...
- Poderia daquele verbo: não pode! Já está tarde. Vá!
Eduardo
a soltou e sorriu com sorrir de amor puro, verdadeiro, amor que Guilia
dispensara. O rapaz dirigiu-se para a porta e novamente voltou a sorrir para
ela que se pôs a apenas acenar com a cabeça. Quando o último convidado entrou
no carro e definitivamente saiu da linha de seus olhos, a desesperada menina
correu para o quarto onde já se encontrava Luiza. Ao abrir a porta correu para
a cama e se jogou e aos gritos dizia:
- Ele desistiu, amiga! Desistiu!
Luiza
chorava em ver o sofrimento da amiga que loucamente gritava e chorava.
- Ele é fraco, Gui. Fraco! Não merece você!
- Ele não sabe o mal que me fez! Não sabe o que está
fazendo! Por que ele não pensou um pouco, só um pouco em nós dois? Por quê?
- Amiga, não há respostas para isso. Só ele saberia
explicar, mas o que te posso dizer é que ele sentirá isso lá na frente, reflexo
do que ele está fazendo. Com certeza.
- Luiza, o que vou fazer sem ele? Quem vai me proteger e me
entender? Como não pensar nele, no sorriso, no abraço ou no beijo? Como não
pensar na falta que ele me faz e me fará? Sem ele minha vida perde o rumo,
porque meu rumo era ele.
- Guilia, não posso dizer que essa ferida vai fechar algum
dia. Não posso prometer a você coisas que podem nunca acontecer. O que eu te
posso dizer é que de repente essa ferida aberta doa menos e talvez se torne apenas
uma cicatriz e então a dor será apenas psicológica, daquela que a gente olha e
sente a dor nos olhos e não na ferida cicatrizada. E como diria o poeta: “morrer
de amor não é o fim, mas me acaba.”
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