quarta-feira, 20 de junho de 2012


Cap. XIV
- Um recomeço-
                A vida de Guilia aplumou-se novamente. Esquecera-se dos seus problemas – ou fingira que os havia esquecido- e voltou a sua habitual rotina. Sentada ao piano, pôs-se a tocar tudo quanto não fizera por dias. Embriagou-se de cada nota tão subitamente que quem passava por sua rua parava extasiado e ouvia aquelas belas canções. Seus dedos levemente passavam pelas teclas do piano rústico de sua sala. Com um bravo sorriso, ela não se cansava. Transpirava emoção. Cantava, ria, tocava. Fazia o que melhor sabia fazer: viver. Ao som das peripécias da jovem, os pais acordaram e os vizinhos também. Todos de bom humor. Havia tempo que aqueles dedos estavam empoeirados. Era finalmente um sopro maravilhoso que tocava os ouvidos de todos, inclusive os de Guilia. Diante do piano passaram-se horas e muitas composições até que resolvera caminhar e observar a música natural da vida que estava do lado de fora da porta. Aprontara-se e foi caminhar. O dia estava realmente belo, o sol radiante iluminava aqueles olhos cor de folha, os cabelos quase dourados e aquela pela amenamente branca e macia. Não existia que a não olhasse. Era sim uma beleza estarrecedora. Caminhando pela praia, permitia-se viver cada brisa que tocava seu rosto e cada ausência desta. Alimentava-se daquela inspiração tão presente, tão sólida e viva que se assentou à beira da praia para compor. Com papel e caneta e música aos ouvidos, cada palavra surgia como as ondas no mar, imprevisivelmente. Ria convulsivamente por aquela emoção infinita que estava perante seus olhos, a maravilha que tivera esquecido. E foi entre palavras e suspiros que um belo rapaz a interrompeu.
- Olá!
                Guilia tentou lembrar-se da face que a cumprimentava, ou, talvez, do sorriso, mas definitivamente não lhe era familiar e com aquele rosto desentendido, retribuiu o cumprimento.
- Oi...
                O rapaz, sorrindo, disse:
- A gente não se conhece, mas não poderia me deixar ir sem vir falar com você. Estou há um tempo olhando você escrever e me deixou fascinado com o jeito que olha para o mar, céu e areia, fora o sorriso quando produz o que quer que seja no papel.
                Sem jeito, Guilia sorriu.
- Muito obrigada, mas não é nada.
- Olha, eu não te conheço mesmo, mas com certeza este nada é muita coisa.
                Desajeitada, levantou e perguntou:
- Qual é o seu nome mesmo?
- Desculpe a minha má educação! Sou Rafael... Rafael Cortez.
- Tudo bem (sorrindo)!
- E você, será que poderia saber seu nome?
- Claro, sou Guilia.
- Muito prazer, Guilia (estendendo a mão)!
                Sorrindo, a menina estendeu a mão para que ali fosse feito o primeiro elo de muitos que haveria dali por diante. Sem hesitar, Rafael que honrava o nome, beijou a mão da bela dama que encontrara. A jovem teve a maçã de seu rosto mais roseada que o normal e puxando a mão entre mãos e lábios do belíssimo rapaz, retribuiu o cumprimento.
- Digo o mesmo a você.
                Olharam-se por alguns instantes e apesar do frio subir pela barriga de Guilia, manteve a postura em frente ao jovem, mas pensava no mais íntimo o que estava acontecendo. O rapaz se encantara com tamanha formosura e doçura, a voz dela era melodia aos ouvidos dele. Sem pestanejar, falou:
- Você estuda, trabalha?
- Estudo.
- Legal! Provavelmente da área de humanas, acertei?
- É, das artes.
- Hum... Então...
- Sou musicista!
                Rindo, Rafael apontando para Guilia, disse:
- Eu sabia! Sabia! Tinha de ser algo relacionado à poesia! Nossa! Nunca vi ninguém olhar do jeito que você olhava para tudo ao seu redor! Não era qualquer coisa, certo?
- Não era nada tão importante. Tinha tempo que não experimentava escrever, então acabou sendo assim, especial.
- Eu nunca vou me esquecer desta cena, Guilia.
- Que isso!
- É sério, mas me diga, você toca qual instrumento?
- Sou pianista, mas me arrisco, às vezes, no violão.
- Ual! Deve ser incrível! Toca há muito tempo?
- Piano desde meus seis anos.
- Você deve ser fantástica no piano.
- É um constante aprendizado, tenho muito que aprender. Mas, deixemos de lado as perguntas para mim e me diga um pouco sobre você. Estuda, trabalha?
- Estudo nas horas livres porque gosto, mas sou formado em direito e exerço a função de delegado federal.
- Nossa! Tão novo assim você já é delegado?
- Não sou tão novo assim. Preparei-me desde muito novo para isso. Fiz a faculdade na área por isto.
                Encabulada, Guilia indagou:
- Não é tão novo? Sei que não é bom perguntar, mas você despertou curiosidade em mim. Quantos anos você tem?
- Quantos anos você acha?
- Deve ter... Não sei... uns vinte e seis?
- Muito obrigado pela consideração! Mas tenho trinta.
- Nossa! Você está muito bem!
- Obrigado.
- Disponha (sorrindo).
- E você, Guilia, quantos anos você tem? Pelo rosto deve ser bem nova, mas como fala me deixa em dúvida, muito madura.
- Vou te deixar adivinhar, ok ?
- Putz! Nunca acerto, mas vamos lá. Pelo rosto uns vinte talvez... Vinte e dois, eu acho. Acertei?
- Não (gargalhando)! Tenho dezessete.
- Nossa! Muito nova mesmo! Você é uma menina.
- Não posso discordar.
- Menina com jeito de mulher. Combinação perfeita!
- Obrigada (procurando o chão).
                E conversaram tempo suficiente para trocarem telefones e marcarem um possível encontro. Um novo começo acontecia em Guilia e nem ela poderia perceber o quanto tudo mudaria a partir daquele momento tão imprevisível, como outrora havia acontecido.

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