Cap.
XIV
- Um
recomeço-
A vida de Guilia aplumou-se
novamente. Esquecera-se dos seus problemas – ou fingira que os havia esquecido-
e voltou a sua habitual rotina. Sentada ao piano, pôs-se a tocar tudo quanto
não fizera por dias. Embriagou-se de cada nota tão subitamente que quem passava
por sua rua parava extasiado e ouvia aquelas belas canções. Seus dedos
levemente passavam pelas teclas do piano rústico de sua sala. Com um bravo
sorriso, ela não se cansava. Transpirava emoção. Cantava, ria, tocava. Fazia o
que melhor sabia fazer: viver. Ao som das peripécias da jovem, os pais
acordaram e os vizinhos também. Todos de bom humor. Havia tempo que aqueles
dedos estavam empoeirados. Era finalmente um sopro maravilhoso que tocava os
ouvidos de todos, inclusive os de Guilia. Diante do piano passaram-se horas e
muitas composições até que resolvera caminhar e observar a música natural da
vida que estava do lado de fora da porta. Aprontara-se e foi caminhar. O dia
estava realmente belo, o sol radiante iluminava aqueles olhos cor de folha, os
cabelos quase dourados e aquela pela amenamente branca e macia. Não existia que
a não olhasse. Era sim uma beleza estarrecedora. Caminhando pela praia,
permitia-se viver cada brisa que tocava seu rosto e cada ausência desta.
Alimentava-se daquela inspiração tão presente, tão sólida e viva que se
assentou à beira da praia para compor. Com papel e caneta e música aos ouvidos,
cada palavra surgia como as ondas no mar, imprevisivelmente. Ria
convulsivamente por aquela emoção infinita que estava perante seus olhos, a
maravilha que tivera esquecido. E foi entre palavras e suspiros que um belo
rapaz a interrompeu.
- Olá!
Guilia tentou lembrar-se da face
que a cumprimentava, ou, talvez, do sorriso, mas definitivamente não lhe era
familiar e com aquele rosto desentendido, retribuiu o cumprimento.
- Oi...
O rapaz, sorrindo, disse:
- A gente não
se conhece, mas não poderia me deixar ir sem vir falar com você. Estou há um
tempo olhando você escrever e me deixou fascinado com o jeito que olha para o
mar, céu e areia, fora o sorriso quando produz o que quer que seja no papel.
Sem jeito, Guilia sorriu.
- Muito
obrigada, mas não é nada.
- Olha, eu não
te conheço mesmo, mas com certeza este nada é muita coisa.
Desajeitada, levantou e
perguntou:
- Qual é o seu
nome mesmo?
- Desculpe a minha
má educação! Sou Rafael... Rafael Cortez.
- Tudo bem
(sorrindo)!
- E você, será
que poderia saber seu nome?
- Claro, sou
Guilia.
- Muito
prazer, Guilia (estendendo a mão)!
Sorrindo, a menina estendeu a
mão para que ali fosse feito o primeiro elo de muitos que haveria dali por
diante. Sem hesitar, Rafael que honrava o nome, beijou a mão da bela dama que
encontrara. A jovem teve a maçã de seu rosto mais roseada que o normal e
puxando a mão entre mãos e lábios do belíssimo rapaz, retribuiu o cumprimento.
- Digo o mesmo
a você.
Olharam-se por alguns instantes
e apesar do frio subir pela barriga de Guilia, manteve a postura em frente ao
jovem, mas pensava no mais íntimo o que estava acontecendo. O rapaz se
encantara com tamanha formosura e doçura, a voz dela era melodia aos ouvidos
dele. Sem pestanejar, falou:
- Você estuda,
trabalha?
- Estudo.
- Legal!
Provavelmente da área de humanas, acertei?
- É, das
artes.
- Hum...
Então...
- Sou
musicista!
Rindo,
Rafael apontando para Guilia, disse:
- Eu sabia!
Sabia! Tinha de ser algo relacionado à poesia! Nossa! Nunca vi ninguém olhar do
jeito que você olhava para tudo ao seu redor! Não era qualquer coisa, certo?
- Não era nada
tão importante. Tinha tempo que não experimentava escrever, então acabou sendo
assim, especial.
- Eu nunca vou
me esquecer desta cena, Guilia.
- Que isso!
- É sério, mas
me diga, você toca qual instrumento?
- Sou
pianista, mas me arrisco, às vezes, no violão.
- Ual! Deve
ser incrível! Toca há muito tempo?
- Piano desde
meus seis anos.
- Você deve
ser fantástica no piano.
- É um
constante aprendizado, tenho muito que aprender. Mas, deixemos de lado as
perguntas para mim e me diga um pouco sobre você. Estuda, trabalha?
- Estudo nas
horas livres porque gosto, mas sou formado em direito e exerço a função de
delegado federal.
- Nossa! Tão
novo assim você já é delegado?
- Não sou tão
novo assim. Preparei-me desde muito novo para isso. Fiz a faculdade na área por
isto.
Encabulada, Guilia indagou:
- Não é tão
novo? Sei que não é bom perguntar, mas você despertou curiosidade em mim.
Quantos anos você tem?
- Quantos anos
você acha?
- Deve ter...
Não sei... uns vinte e seis?
- Muito
obrigado pela consideração! Mas tenho trinta.
- Nossa! Você
está muito bem!
- Obrigado.
- Disponha
(sorrindo).
- E você,
Guilia, quantos anos você tem? Pelo rosto deve ser bem nova, mas como fala me
deixa em dúvida, muito madura.
- Vou te
deixar adivinhar, ok ?
- Putz! Nunca
acerto, mas vamos lá. Pelo rosto uns vinte talvez... Vinte e dois, eu acho.
Acertei?
- Não
(gargalhando)! Tenho dezessete.
- Nossa! Muito
nova mesmo! Você é uma menina.
- Não posso
discordar.
- Menina com
jeito de mulher. Combinação perfeita!
- Obrigada
(procurando o chão).
E conversaram tempo suficiente
para trocarem telefones e marcarem um possível encontro. Um novo começo
acontecia em Guilia e nem ela poderia perceber o quanto tudo mudaria a partir
daquele momento tão imprevisível, como outrora havia acontecido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário