quarta-feira, 4 de julho de 2012


Cap. XVI
Parte I
 -Encontro marcado-

Após desligar o telefonema de Luiza e concomitantemente aceitar a proposta de encontro de Rafael, dirigiu-se à varanda do seu quarto e olhando para o mar pôs-se a refletir. Extasiada pelo convite e por não esperar que alguém poderia chegar à sua vida de forma tão inesperada e tão precisa, começou a dar ouvidos aos seus sentimentos mais profundos e nas profundezas de um coração dilacerado encontrou as sombras de Arthur. Subiu das entranhas de sua alma e perpassou todo o corpo aquele frio de ausência sem despedida e a arrepiou temerosamente. No entanto, Guilia manteve-se forte, desviou os olhares procurando o escape e sem perceber olhou para o céu e ao longe pode identificar resquícios de lua, um possível luar haveria de chegar. A lua estava a olhá-la e mais que depressa, Guilia lembrou-se do último contato de Arthur e imaginou os olhos dele. Sorriu e não se conteve em pensar nostalgicamente naquele que outrora a tinha feito feliz. Emaranhada de pensamentos, silenciada e sufocada por lembranças veio à mente a imagem de Rafael, o nobre rapaz que conhecera e gradativamente o desespero passado foi dando espaço aos sorrisos e as boas novas. Era uma nova vida que tentava surgir e conseguira, mesmo que possivelmente temporária.
Pequena notação:
Não sabia que roupa escolher,
Não dormira,
Vivera.
                O dia seguinte chegou em meio a insônia de Guilia. Descobrira que a ansiedade lhe tirava o sono e foi desta forma que muitas vezes se entregou a suas confissões escritas naquela espécie de diário. Nele encontrava paz, as palavras e sentimentos se acomodavam bem naquele pequeno confessionário singular e a cada palavra escrita, gradativamente amanhecia. O tempo, conforme previsto, passara lentamente até o horário do encontro, mas nada que os dedos tocando o piano não adiantasse. Sentou-se ao piano e os dedos se sentiam em casa, aconchegados, felizes. Estavam no lugar que queriam estar, assim como a dona deles. Estava chegando ao lugar que realmente deveria estar. Enfim, chegou o momento do encontro. Por receio, Guilia marcou o encontro na praia no lugar onde se conheceram. Como morava próximo do local, caminhou e podia avistá-lo ao longe. O vento batia no rosto de Rafael e bagunçava lhe a blusa em seu corpo. O rosto era, sem dúvida, radiante. O sol batia nos olhos acastanhados e sobre seus cabelos aveludados. A cerrada barba dava o ar sóbrio ao rapaz e esta imagem era a que a jovem guardaria sempre que lembrasse o nome Rafael ou Cortez. Aproximou-se. O coração parecia saltar nos braços do rapaz. Ele sorriu. Desconcertou-a. Sorriu em retribuição. Seria mais um elo, neste caso visual que se perpetuaria na mente de Rafael por toda a eternidade de sua vida.
                Guilia o cumprimentou e ele arrebatado por aquela beleza estonteante que pairava diante de seus olhos, pegou na mão da moça, assim como nos contos de fadas, ajoelhou-se e beijou por longos e eternos segundos a mão da princesa. Com bochechas roseadas, Guilia pediu para que ele se levantasse. Ergueu-se e sorrindo, murmurou:
                - Não se envergonhe! Você é digna que todos os homens façam isso quando passar pela visão deles. Você é uma princesa!
                - Você me deixa totalmente tímida, encabulada.
                - Acostume-se ao que você é! Farei jus ao meu nome e honrarei sua existência, ok? Não se preocupe comigo, porque este é o meu jeito.
                - Se você está dizendo...
                               Rafael a interrompeu:
                - Você não deve ser tratada de outra forma, meu anjo.
               
Nunca tivera sido tratada com tanta cortesia em sua vida como fora naquele instante. Se era para conquista-la, sem dúvida, a teria conquistado, mas isso se fosse outra e não Guilia.  Para aquele coração ferido e nunca cicatrizado, gentileza era muito pouco, mas bastava para aquele momento cujas façanhas gentis se estenderam por toda uma vida.

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