Cap. XVI
Parte I
-Encontro marcado-
Após desligar
o telefonema de Luiza e concomitantemente aceitar a proposta de encontro de
Rafael, dirigiu-se à varanda do seu quarto e olhando para o mar pôs-se a
refletir. Extasiada pelo convite e por não esperar que alguém poderia chegar à
sua vida de forma tão inesperada e tão precisa, começou a dar ouvidos aos seus
sentimentos mais profundos e nas profundezas de um coração dilacerado encontrou
as sombras de Arthur. Subiu das entranhas de sua alma e perpassou todo o corpo
aquele frio de ausência sem despedida e a arrepiou temerosamente. No entanto,
Guilia manteve-se forte, desviou os olhares procurando o escape e sem perceber
olhou para o céu e ao longe pode identificar resquícios de lua, um possível
luar haveria de chegar. A lua estava a olhá-la e mais que depressa, Guilia
lembrou-se do último contato de Arthur e imaginou os olhos dele. Sorriu e não
se conteve em pensar nostalgicamente naquele que outrora a tinha feito feliz.
Emaranhada de pensamentos, silenciada e sufocada por lembranças veio à mente a
imagem de Rafael, o nobre rapaz que conhecera e gradativamente o desespero
passado foi dando espaço aos sorrisos e as boas novas. Era uma nova vida que
tentava surgir e conseguira, mesmo que possivelmente temporária.
Pequena notação:
Não sabia que roupa
escolher,
Não dormira,
Vivera.
O
dia seguinte chegou em meio a insônia de Guilia. Descobrira que a ansiedade lhe
tirava o sono e foi desta forma que muitas vezes se entregou a suas confissões
escritas naquela espécie de diário. Nele encontrava paz, as palavras e
sentimentos se acomodavam bem naquele pequeno confessionário singular e a cada
palavra escrita, gradativamente amanhecia. O tempo, conforme previsto, passara
lentamente até o horário do encontro, mas nada que os dedos tocando o piano não
adiantasse. Sentou-se ao piano e os dedos se sentiam em casa, aconchegados,
felizes. Estavam no lugar que queriam estar, assim como a dona deles. Estava
chegando ao lugar que realmente deveria estar. Enfim, chegou o momento do
encontro. Por receio, Guilia marcou o encontro na praia no lugar onde se
conheceram. Como morava próximo do local, caminhou e podia avistá-lo ao longe. O
vento batia no rosto de Rafael e bagunçava lhe a blusa em seu corpo. O rosto
era, sem dúvida, radiante. O sol batia nos olhos acastanhados e sobre seus
cabelos aveludados. A cerrada barba dava o ar sóbrio ao rapaz e esta imagem era
a que a jovem guardaria sempre que lembrasse o nome Rafael ou Cortez. Aproximou-se.
O coração parecia saltar nos braços do rapaz. Ele sorriu. Desconcertou-a.
Sorriu em retribuição. Seria mais um elo, neste caso visual que se perpetuaria
na mente de Rafael por toda a eternidade de sua vida.
Guilia
o cumprimentou e ele arrebatado por aquela beleza estonteante que pairava
diante de seus olhos, pegou na mão da moça, assim como nos contos de fadas,
ajoelhou-se e beijou por longos e eternos segundos a mão da princesa. Com
bochechas roseadas, Guilia pediu para que ele se levantasse. Ergueu-se e
sorrindo, murmurou:
-
Não se envergonhe! Você é digna que todos os homens façam isso quando passar
pela visão deles. Você é uma princesa!
-
Você me deixa totalmente tímida, encabulada.
-
Acostume-se ao que você é! Farei jus ao meu nome e honrarei sua existência, ok?
Não se preocupe comigo, porque este é o meu jeito.
-
Se você está dizendo...
Rafael
a interrompeu:
-
Você não deve ser tratada de outra forma, meu anjo.
Nunca tivera sido tratada com tanta cortesia em
sua vida como fora naquele instante. Se era para conquista-la, sem dúvida, a
teria conquistado, mas isso se fosse outra e não Guilia. Para aquele coração ferido e nunca
cicatrizado, gentileza era muito pouco, mas bastava para aquele momento cujas
façanhas gentis se estenderam por toda uma vida.
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