XI - Aniversário
parte I
Alguns dizem que o tempo cura qualquer coisa, mas às vezes a
sensação que dá é que ele além de não aliviar, sacia ainda mais a dor latente
no peito, como se fosse um suprimento ou alguma coisa parecida. Guila viu seus
dias passarem lentamente ao passo que todas as tentativas de comunicação com
Arthur foram vãs. Ligava desesperadamente, mandava e-mails e cartas, mas nenhumas
dessas inúteis tentativas foram compreendidas. O que restava a pobre moça era
esperar algum sinal chegar. Ao lado do telefone, esperando por algum sinal, passava
noites a fio, na angústia do celular tocar ou nas atualizações da caixa do
e-mail receber algum sinal daquele que um dia jurou amor eterno. Foram noites e
dias sem dormir, sem comer direito, sem produzir uma música sequer. A grande
inspiração havia se perdido, o grande amor da vida dela, do outro lado do
oceano a esquecera por completo.
Enfim, o aniversário da menina Guilia havia chegado. Vinda
de uma família um pouco tradicional, prezavam por dias que mereciam comemoração
e fazia jus a data festiva. Porém, a aniversariante que outrora era cheia de
vida, de brio, de sorrisos a exalar, esta só queria neste dia esquecer o mundo
e correr para o mais longe que pudesse, a fim de se perder, perder-se do
próprio corpo e alma, aliviar-se da dor que guardava, em silêncio, no peito. A
única coisa que poderia alegrar o dia da pequena Guilia era um sinal vindo da
Europa. Um sinal de vida, vida nela, vida de Arthur. Vida que chegou.
Os pais da adorável moça terminavam os preparativos da grandiosa
festa, e, enquanto a euforia paternal acontecia ao arredores da casa, Guilia
encontrava-se em seu quarto, ainda deitada, buscando a razão em si de Arthur
ter sumido. Entre lamentações e questionamentos, sua grande amiga a interrompeu
batendo a porta.
- Mãe, já vou! Já estou quase pronta!
- Não é sua mãe, não! É sua melhor amiga! Será que posso
entrar? (rindo)
- Claro, Lu!
Levantou-se,
ajeitando os cabelos e abriu a porta. Luíza se assustou.
- Amiga, as pessoas estão chegando! Vá se aprontar!
- Não quero descer, amiga!
- O que houve? Aconteceu alguma coisa? Tenho ligado para
você, mas não tem retornado, pensei que fosse a faculdade ou algo parecido!
- Não, amiga, pior que isso!
- O que foi? É o Arthur? Fala!!!
- É, amiga, parte de
mim não está mais aqui.
- Amiga, me diz, o que houve?!
Em lágrimas,
Guilia disse:
- Ele sumiu. Não me atende, não responde aos meus e-mails,
minhas cartas ou mensagens. Ele simplesmente desapareceu. Liguei para empresa
dele e ele tem ido trabalhar regularmente. Morrer ele não morreu. Eu que morri
para ele, amiga. Eu que morri.
Ajoelhou
bem devagar e em prantos, a doce menina, falava:
- Eu não vou aguentar isso, Luiza. Não vou aguentar.
Neste
momento, Luiza mais que imediato agachou-se e abraçou a amiga sem falar nada.
Há momentos que palavras não ajudam e momentos que dispensam comentários.
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